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José Goldemberg: Aquecedores solares podem reduzir consumo de energia elétrica no horário de pico

“É irracional um país como o Brasil usar chuveiro elétrico”

Um dos principais especialistas brasileiros em produção de energia, o físico José Goldemberg, de 82 anos, alerta para o paradoxo de um país com ampla irradiação solar como o Brasil utilizar principalmente a energia elétrica, que é mais cara, no aquecimento de água nas residências e indústrias.  

Professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da Universidade de São Paulo, Goldemberg foi reitor da USP (1986-1990), secretário nacional de Ciência e Tecnologia (1990-1991), ministro da Educação (1991-1992) e secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (2002-2006).

Em 2008, recebeu o Prêmio Planeta Azul, considerado o Nobel do meio ambiente, concedido pela fundação japonesa Asahi Glass a pessoas que se destacam em pesquisa e formulação de políticas públicas na área ambiental. É autor de “Energy for a Sustainable World” (1988) e “Energy and Environment in the Developing Countries” (1995), entre inúmeros outros trabalhos sobre energia.

Goldemberg foi um dos primeiros cientistas a defender o álcool como combustível por meio do Proálcool na década de 70. Para reduzir o consumo de energia hidrelétrica e a necessidade de grandes obras, o cientista propõe o aumento da geração de eletricidade a partir do bagaço de cana-de-açúcar e o lançamento de um grande programa de racionalização do uso de energia elétrica.

Nesta entrevista exclusiva à Sol Brasil, Goldemberg defende não só etiquetagem compulsória dos coletores solares em programas como o Procel como também a proibição de venda de equipamentos que consomem mais energia.

Sol Brasil: Quais são as principais estratégias para que o Brasil, um país privilegiado pela irradiação solar, utilize em grande escala esta fonte de energia e os sistemas de aquecimento solar?

José Goldemberg: A participação da energia solar térmica na matriz energética é pequena apesar da ampla irradiação solar no Brasil. Ao contrário da China, que fez grandes progressos sobretudo no aquecimento de água. O resultado disso tudo é perverso: no Brasil, usa-se a energia elétrica para aquecer água, o que exige grandes investimentos, como a construção de usinas hidrelétricas ou térmicas para produzir essa eletricidade. Seria mais racional captar a energia solar nos coletores instalados nos telhados para aquecer a água em temperatura suficiente para o uso doméstico. Uma estratégia para aumentar o uso da energia solar é a aprovação e cumprimento de leis que incentivem essa utilização.

Sol Brasil:  Em várias cidades do mundo existem leis que incentivam o uso da energia solar. Na cidade de São Paulo, a Lei 14.459, de 03 de julho de 2007 determina o atendimento de 40% da demanda de água quente por energia solar em condomínios residenciais com quatro ou mais banheiros.  Como o governo e a sociedade poderiam atuar para tornar efetiva a aplicação de leis como essa?

 José Goldemberg: A legislação é a opção correta e a maneira mais segura de ampliar o uso da energia solar. Em Israel, todas as casas têm aquecimento solar, caso contrário os moradores não conseguem o habite-se. Então, a lei municipal na cidade de São Paulo é uma iniciativa muito boa. Mas antes de São Paulo, cidades muito ensolaradas como Brasília e Belo Horizonte, começaram a introduzir os coletores solares, instalados nos telhados. Brasília tem muita casa térrea. Em São Paulo, a aplicação da lei é mais complexa porque há uma predominância de prédios de apartamentos.

Sol Brasil:  Alguns estudos indicam que o uso de sistemas de aquecimento solar (SAS) poderia contribuir para a redução do horário de pico de energia do segmento residencial. Como o Sr. avalia esta contribuição?

José Goldemberg: Sim, a utilização dos sistemas de aquecimento solar poderia contribuir significativamente para diminuir o uso residencial de energia, especialmente no horário de pico, quando o custo da energia elétrica fica duas ou três vezes mais caro para a indústria. É irracional usar chuveiro elétrico no Brasil. Você compra o chuveiro elétrico por menos de R$ 100 e quando aciona esse chuveiro, uma empresa de energia tem que construir uma usina hidrelétrica ou térmica para produzir o kilowatt de energia necessário para o chuveiro aquecer a água. Essa produção de energia custa R$ 4 mil na outra ponta. É um investimento irracional.

Sol Brasil:  É preciso estudar mais o aproveitamento da energia solar? Existem muitas pesquisas nessa área?

 José Goldemberg: Não são necessários mais estudos científicos para comprovar as vantagens da energia solar. Antigamente, tínhamos um problema tecnológico (antigamente, os coletores vazavam), mas já foi resolvido.  Realizar mais pesquisas somente atrasaria a implantação dos sistemas de aquecimento solar.

Sol Brasil: Qual a maior contribuição do SAS para um país com as características do Brasil?

José Goldemberg: A maior contribuição é ambiental. A energia solar é o sonho dos ecologistas porque não é poluente e essa é uma característica das energias renováveis. Uma usina termoelétrica, ao contrário, emite poluição ao queimar carvão.

Sol Brasil:  Em muitos países, o governo desenvolve programas de incentivo ao uso de energias renováveis, como sistemas de aquecimento solar. No Brasil, o que seria necessário para viabilizar este tipo de incentivo?

 José Goldemberg: Os bancos poderiam emprestar recursos para compra de sistemas de aquecimento solar a juros privilegiados, como acontece nos Estados Unidos. Lá, o governo não só empresta como também subsidia a compra de equipamentos porque se gasta muita energia em aquecimento residencial no inverno. As casas foram construídas com pouco isolamento térmico. Hoje, o governo norte-americano financia paredes mais isolantes e janelas com vidro duplo para aumentar o isolamento térmico.  Aqui no Brasil, você vai ao banco e, sem você pedir, o gerente te oferece um financiamento para carro. Deveria oferecer financiamento para o aquecimento solar.

 Sol Brasil: Como o Sr. avalia a evolução da matriz energética nacional sob o ponto de vista de energias renováveis? Há espaço para a energia solar térmica?

 José Goldemberg: A energia solar poderia ser mais usada em setores industriais que usam calor de baixa temperatura. Um exemplo são as tinturarias que precisam de água aquecida a 80 graus centígrados. Com o uso industrial, a energia solar poderia ter uma participação de 10% na matriz energética. Hoje essa participação é muito menos que isso.

Sol Brasil:  Quais são os caminhos para ampliar a conscientização da sociedade brasileira sobre o uso de fontes de energia renováveis e limpas?

José Goldemberg: A conscientização já está ocorrendo por causa da preocupação com a poluição e com o aquecimento global. Mas frequentemente as pessoas não fazem a conexão entre a poluição global e o que cada uma delas pode fazer em sua casa. As geleiras da Antartida estão derretendo. E uma das razões porque isso ocorre é porque as pessoas não usam energias renováveis e limpas como a solar.

Quando o governo determina o uso de energia solar em um programa de habitação, essa iniciativa ajuda a conscientizar as pessoas a se preocuparem com as energias renováveis e limpas. Fiquei muito admirado como exemplo de Israel, que usa largamente a energia solar. Pensava que eles estavam sendo mais inteligentes que os outros países ao optarem por uma energia mais barata. Mas não se tratava de esperteza ou inteligência. O motivo era mais simples e está no código de obras israelense: sem coletor solar, não tem habite-se.

Sol Brasil: Espera-se uma ampliação do uso da energia solar para aquecimento de água por causa de programas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida, Cohabs e CDHU-SP. Que outros setores podem ser beneficiados por essa tecnologia?

 José Goldemberg: É verdade, os programas habitacionais estão começando a introduzir e divulgar o coletor solar. Como é o governo que constrói as casas, ele pode determinar o uso da energia solar nessas moradias. E as casas populares são construídas em grandes quantidades. É uma maneira fácil de transformar vontade política em ação consistente. Como disse antes, outros setores da indústria podem ser beneficiados, como as tinturarias que utilizam calor de baixa temperatura.

 Sol Brasil: O custo da energia aumentou drasticamente após a crise do petróleo em 1973. Em várias partes do mundo, investiu-se na eficiência energética dos equipamentos, mas essa preocupação chegou ao Brasil de forma mais intensa somente em meados dos anos 80. Por que os sistemas de aquecimento solar ainda são tão pouco difundidos no nosso país?

 José Goldemberg: Falta informação. Algumas regiões do país, aquelas mais ensolaradas, já perceberam que a energia solar é mais barata. E que a energia elétrica é muito cara. Os sistemas de aquecimento solar são menos difundidos no Sul do País, onde o clima não é tão favorável. No Sul chove mais, o céu fica mais nublado. As pessoas pensam que, com muita chuva, o sistema de aquecimento solar não vai funcionar direito e que elas ficarão sem água quente. É um engano.

 Os equipamentos disponíveis no Brasil já resolveram esse problema. Eles permitem armazenar calor. Se faltar luz do sol, esses equipamentos acionam um dispositivo elétrico. Mesmo acionando esse dispositivo, o consumo de energia ainda será muito menor do que o de um chuveiro elétrico.

Sol Brasil:  Como o sr. avalia a participação dos sistemas de aquecimento solar no Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE) do Inmetro e Procel/Eletrobras? Quais são os benefícios da etiquetagem para os consumidores e para a indústria de aquecimento solar?

José Goldemberg: O Procel é um programa que funciona muito bem. As geladeiras, por exemplo, têm o selo que informa quanto consomem de energia. Se você for um consumidor consciente, vai escolher a geladeira que consome menos. O que falta é proibir a comercialização dos equipamentos de pior desempenho, que consomem mais energia. Recentemente foi proibida a venda de geladeiras da categoria E. Achei maravilhoso. É preciso estender essa proibição a outros produtos e eliminar os piores fabricantes.

Sol Brasil: Qual é a sua opinião sobre a obrigatoriedade de níveis mínimos de eficiência energética para coletores solares e reservatórios térmicos?

José Goldemberg: Eu defendo a etiquetagem compulsória, mas não basta etiquetar. O programa tem que ser compulsório e, como já disse antes, prever a proibição de comercialização de equipamentos que consomem muita energia. Isso já foi feito em outros países. A indústria frequentemente reage a essa ideia, os fabricantes acham que serão prejudicados. Mas essa é a maneira correta de incentivar a produção de equipamentos eficientes.

Sol Brasil:  A Copa do Mundo e as Olimpíadas exigirão um sério compromisso do Brasil com a infraestrutura e produção de energia. Na sua opinião, estamos preparados, sob o ponto de vista energético, para atender a essa demanda?

José Goldemberg: Bom, não é a energia solar, pela sua atual participação na matriz energética, que vai resolver este desafio. São as grandes usinas hidrelétricas, como a de Belo Monte, que o governo está construindo. A preocupação com a demanda de energia é correta. Porém, a solução não é só a construção de usinas. Também é preciso reforçar os sistemas de transmissão e sua capacidade para transportar a energia dos locais com excesso de produção para os locais com falta de energia e maior demanda.

Acredito que o risco de um apagão seria atenuado usando mais bagaço de cana, que é a principal fonte de biomassa usada na produção de energia. Aqui no Estado de São Paulo, por exemplo, são gerados 2 milhões de kilowatts a partir de bagaço de cana, mas poderíamos chegar a 5 milhões!

Minha sugestão é que as entidades que vão organizar a Copa e as Olimpíadas aproveitem esses eventos para divulgar o uso de energias renováveis. As piscinas de competição, por exemplo, poderiam ser aquecidas com energia solar a título de demonstração. É uma sugestão que faço para a ABRAVA/DASOL: colocar coletores solares nas competições. Imagine o efeito dessa demonstração em um Estado como o Rio de Janeiro!

Revista Sol Brasil – 4° edição.

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Revista Sol Brasil – Abril 2012

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